Mensagens vazadas mostram contato direto entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro antes da prisão do banqueiro; escritório da esposa do ministro recebeu R$ 131 milhões
Mensagens obtidas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master preso por lavagem de dinheiro, mostram contato direto e pessoal com o ministro Alexandre…

Mensagens trocadas entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do já liquidado Banco Master, vieram à tona em 1º de setembro de 2026. O material foi extraído do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, na Operação Compliance Zero, e virou prova documental depois que o ministro André Mendonça, do próprio STF, determinou a retirada de sigilo do relatório que o continha. Vorcaro está preso desde novembro de 2025, quando o Banco Master foi liquidado extrajudicialmente em meio a suspeitas de lavagem de dinheiro.

O que as mensagens mostram

As trocas cobrem um período de mais de um ano, de maio de 2024 a novembro de 2025, e vão de pedidos de ajuda a demonstrações de afeto. Em 4 de novembro de 2025, Vorcaro escreveu a Moraes pedindo "pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade", em referência ao avanço das investigações da PF contra ele. Em 13 de novembro, dois dias antes de ser preso, o banqueiro questionou "acha que segunda já tenho que estar fora?", cogitando deixar o país. No dia seguinte, 14 de novembro, escreveu "estamos juntos sempre" e "tenho gratidão da minha vida a você". Uma mensagem anterior, de maio de 2024, mostra uma funcionária de Vorcaro sendo instruída a preparar ingresso VIP porque "filha Alexandre Moraes vai te chamar aí", episódio que a PF apurou como possível benefício indevido à família do ministro.

O contrato com o escritório da esposa do ministro

Paralelamente às mensagens, o relatório da PF documenta um contrato firmado em janeiro de 2024 entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia, do qual é sócia Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes. O valor total do contrato, pago em parcelas mensais, chega a R$ 131 milhões. Em nota enviada à imprensa, o escritório confirmou que o ministro teve acesso ao processo de contratação, mas justificou que o setor de compliance do escritório o consultou apenas como marido da sócia responsável, para checar eventuais impedimentos legais para aceitar o cliente, e afirmou que Alexandre de Moraes nunca julgou nenhum processo relacionado ao Banco Master.

A negativa de março e o que o relatório da PF contesta

O caso ganha um contraponto direto: em 6 de março de 2026, a Secretaria de Comunicação do STF, a pedido do gabinete de Moraes, divulgou nota negando qualquer conversa entre o ministro e o banqueiro. O relatório da PF, liberado em setembro, contesta essa versão. Segundo o documento, o contato do ministro não foi um número adicionado por engano à agenda de Vorcaro, mas sim uma aproximação feita por um intermediário identificado, em contexto documentado e associado a encontros presenciais.

Como juristas estão lendo o caso

Consultados pela imprensa, juristas divergem na leitura do episódio. Uma linha vê o vazamento como uso político contra um ministro que segue sendo alvo de ataques de setores bolsonaristas desde o julgamento dos atos golpistas de 8 de janeiro. Outra linha vê o caso como uma genuína crise de credibilidade institucional, independente de quem se beneficia politicamente da revelação: a existência do contrato milionário com o escritório da esposa do ministro e a contradição entre a nota oficial de março e o relatório da PF são fatos que, por si, já levantam questões sobre transparência que precisam de resposta, dizem esses juristas. Até a publicação desta matéria, o STF não havia se pronunciado oficialmente sobre o novo relatório.

Fontes

Apuração baseada em reportagens do Estadão (revelação original das mensagens), ric.com.br (as cinco frases das mensagens, com datas), Poder360 (o contrato de R$ 131 milhões com o escritório Barci de Moraes) e Brasil de Fato (reação de juristas ao caso).

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