R$ 100 de 2018 viram R$ 150 no índice e R$ 177 no mercado: a conta da inflação acumulada que o IPCA comportado não mostra
Lula disse à Record que a sensação de preço caro existe porque "estamos comprando mais" e porque o povo "compra sem somar". Esta matéria fez a soma que o…

Comecemos pelo que a honestidade manda dizer: na taxa, a inflação da era COVID foi muito pior que a atual. O IPCA fechou 2021 em 10,06%, maior alta desde 2015, com pico de 12,13% em 12 meses em abril de 2022; a comida subiu 18,15% só em 2020 e a gasolina, 47,49% em 2021. Hoje o índice roda a 4,44% em 12 meses. O problema, e é ele que esta matéria quantifica, é que preço não devolve degrau: o incêndio de 2020-2022 passou, o nível que ele deixou ficou, e cada ano de 4% e pouco desde então compõe por cima. Resultado, calculado direto na série oficial do IBGE (SIDRA): o que custava R$ 100 em dezembro de 2018 custa hoje R$ 150,13 pelo IPCA geral e R$ 177,49 pela alimentação no domicílio. O gráfico abaixo mostra as duas curvas, com a troca de gestão marcada, e não esconde nada: a maior parte da escalada dos alimentos aconteceu entre 2020 e 2022; o que a gestão atual herdou de nível, não devolveu, e segue compondo por cima.

Gráfico de linhas desde dez/2014, base 100: cesta básica DIEESE, IPC-Fipe, salário mínimo, piso do magistério e IPCA como referência, com faixa sombreada marcando a pandemia de COVID entre 2020 e 2022 e linha vertical na troca de gestão em dez/2022
Acumulado desde dez/2014 (base 100). Linhas cheias: preços medidos FORA do IBGE (cesta de gôndola do DIEESE em SP; IPC da Fipe/USP). Tracejadas coloridas: salários (mínimo; piso do magistério/MEC). Linha fina cinza: IPCA, como referência. A faixa avermelhada marca a pandemia de COVID (2020-2022); a vertical tracejada, a troca de gestão em dez/2022.

As duas linhas tracejadas contam o outro lado do poder de compra, e a honestidade manda registrá-las como são. O salário mínimo subiu 69,9% no período, ganho real de 13,2% sobre o IPCA. O piso nacional do magistério subiu 108,9%, de R$ 2.455,35 para R$ 5.130,63, mais que dobrando e abrindo distância de todas as curvas de preço; o maior salto da série, 33,2%, foi em 2022, e os reajustes seguiram desde então. A ressalva que protege o leitor: o piso é o mínimo legal da carreira, e o quanto cada rede estadual e municipal efetivamente paga varia, com descumprimento denunciado de forma recorrente pela categoria. Salário no papel acompanhando o índice não anula a fila do mercado: é contra a comida, que subiu 77,49% no acumulado, e contra a cesta em horas de trabalho que o bolso mede a vida. E a janela longa, desde dezembro de 2014, escancara as duas verdades do gráfico: a cesta de gôndola do DIEESE acumula +158%, muito acima dos +89% do IPCA e dos +85% do IPC-Fipe, enquanto o índice privado da USP e o oficial do IBGE andam colados há onze anos e meio, a prova visual de que a régua oficial não está descolada da privada; o que está descolado do índice é o prato.

O carrinho de 2018, item a item

Pelos subitens oficiais do IPCA, no acumulado de dezembro de 2018 a julho de 2026: café moído +152,9% (os R$ 100 viram R$ 252,88; o pacote de 500g, cerca de R$ 9 em 2018, custava R$ 22,93 em julho, mesmo após a "queda recorde"); feijão-carioca +140,3%, sendo +49,5% somente em 2026, o vilão do ano; carnes +101,9% (o quilo de 2018 dobrou; picanha parte de R$ 60); leite longa vida +95,2%; ovos +81,2%. No posto e na cozinha: a gasolina foi de R$ 4,34 no fim de 2018 para R$ 6,53 (ANP), alta de 50,3%, na linha do índice; o gás de cozinha subiu 67,5%, de R$ 67,99 para R$ 113,89 o botijão, bem acima do IPCA. As honestidades da tabela: o arroz acumula perto do índice geral (subiu 76% em 2020 e devolveu 26% em 2025) e a energia elétrica acumula +47,2%, um pouco abaixo do IPCA, efeito do corte de ICMS de 2022.

Gráfico de barras: o que R$ 100 de dezembro de 2018 custam em julho de 2026 por item: café R$ 253, feijão R$ 240, carnes R$ 202, leite R$ 195, ovos R$ 181, comida em média R$ 177, gás R$ 168, gasolina R$ 150, IPCA geral R$ 150
Barras âmbar: itens acima do índice geral. Barras cinza: gasolina e IPCA geral, a referência. Fontes: subitens do IPCA (SIDRA/IBGE) e tabelas da ANP.

Gestão a gestão, item a item

A tabela abaixo separa o acumulado oficial em duas janelas: a da gestão anterior (dezembro de 2018 a dezembro de 2022) e a da gestão atual (dezembro de 2022 a julho de 2026). A coluna em vermelho carrega o aviso que a honestidade exige: aquele período inclui a pandemia de COVID, choque global que explodiu preços no mundo inteiro. A janela atual não tem pandemia nenhuma, e é exatamente por isso que os números dela precisam se explicar sozinhos.

Item (fonte) dez/2018 a dez/2022
gestão anterior inclui a pandemia de COVID (2020-22)
dez/2022 a jul/2026
gestão atual sem pandemia
IPCA geral (IBGE)+26,93%+18,28%
Alimentação no domicílio (IBGE)+56,11%+13,62%
Feijão-carioca (IBGE)+112,79%+12,89%
Carnes (IBGE)+72,56%+17,04%
Ovo de galinha (IBGE)+71,52%+5,65%
Café moído (IBGE)+70,12%+48,66%
Leite longa vida (IBGE)+63,51%+19,41%
Gás de botijão (IBGE)+61,00%+5,08%
Arroz (IBGE)+56,86%-1,93%
Gasolina (IBGE)+13,65%+31,40%
Gasolina na bomba (ANP, R$/litro)4,34 → 4,964,96 → 6,53
Botijão 13 kg (ANP, R$)69,35 → 109,18109,18 → 113,89
Cesta básica SP (DIEESE, R$)471,44 → 791,29791,29 → 915,01
Cesta em horas de trabalho (DIEESE)108h43 → 143h38143h38 → 124h11

Três leituras honestas saem da tabela. Primeira: a explosão mora na coluna vermelha, e a matéria não finge o contrário; o feijão que subiu 112% e a cesta que passou de 108 para 143 horas de trabalho são herança daquele choque. Segunda: a gasolina é o único item que subiu mais na janela SEM pandemia, +31,40% contra +13,65%, e a diferença tem assinatura conhecida: a desoneração de 2022 barateou a bomba no fim da gestão anterior, e a recomposição dos tributos a partir de 2023 devolveu o imposto ao preço; o café, +48,66% na janela atual, é o choque global que restou. Terceira: a cesta em horas de trabalho piorou quase 35 horas sob o COVID e recuperou 19 na janela atual, e o trabalhador do mínimo ainda gasta 15 horas e meia a mais que em 2018 para encher a mesma cesta. Quem quiser refazer cada número tem os códigos do SIDRA e os PDFs do DIEESE e da ANP nas fontes.

Nota sobre médias e extremos: os valores da ANP na tabela são médias nacionais de bomba; nos extremos captados pela própria agência em 2026, o litro chegou a R$ 9,79 no Guarujá e a R$ 11,19 em Fernando de Noronha. E no feijão, as notas fiscais do painel da VR registram o quilo do carioca saltando de R$ 8,46 para R$ 16,64 (+96,8%) entre os sete primeiros meses de 2025 e os de 2026, segundo a CNN, e o Procon-SP mediu o quilo a R$ 9,32 em junho: a aceleração recente no varejo é maior do que a média da janela sugere. Média não é teto: ela é o piso estatístico do que parte dos consumidores paga.

A prova dos nove: os termômetros privados

Quem desconfia do termômetro oficial pode conferir os privados, e esta redação conferiu todos os que publicam número. Nos 12 meses até julho: IPCA (IBGE) 4,44%; IPC-S da FGV, fundação privada com coleta própria, 4,26%; IPC da Fipe, da USP, 3,59%, medindo só a capital paulista. Na deflação de alimentos de julho, os cinco termômetros marcaram a mesma febre ao mesmo tempo: IBGE (-0,67%), Fipe (-0,69%), FGV (-0,74%), a cesta do DIEESE (-0,91% em SP) e a pesquisa Conab/DIEESE em 26 capitais. E os painéis de dados de caixa e nota fiscal do varejo, que não devem nada a Brasília, contaram em 2026 uma história até mais dura que a oficial: a Scanntech viu batata +60,2% e cenoura +152% no semestre nos supermercados; o painel da VR viu o feijão-carioca subir 96,8%; a Fipe mediu hortifrúti +8,33% em sete meses. O arremate institucional: a associação privada dos supermercados paulistas calcula seu índice de preços em parceria com a Fipe, e a própria FGV monitora cesta de consumo com os dados da Horus/Neogrid. Academia privada e varejo compartilham dados há anos, e ninguém encontrou número que desminta o IPCA. Quem procura maquiagem nos dados acha convergência; quem procura carestia real acha, nos painéis privados, números piores que os do IBGE. Esta casa fica com os dois achados, porque os dois são verdade.

A régua que não engana: horas de trabalho

A melhor medida do bolso não é percentual, é tempo de vida. E quem desconfiar de índice oficial pode usar apenas as réguas de campo desta matéria: o preço de bomba coletado pela ANP e a cesta de gôndola pesquisada pelo DIEESE, entidade mantida por sindicatos, sem vínculo com o governo. Pelo DIEESE, a cesta básica na cidade de São Paulo custava R$ 471,44 em dezembro de 2018 e exigia 108 horas e 43 minutos de trabalho de quem ganha o mínimo. Em julho de 2026: R$ 915,01, alta de 94,1%, exigindo 124 horas e 11 minutos. São 15 horas e meia a mais de trabalho para encher a mesma cesta. O registro que a régua desta casa obriga: o salário mínimo subiu 69,9% no período, de R$ 954 para R$ 1.621, ganho real de 13,2% sobre o IPCA. O trabalhador do mínimo ganhou do índice e perdeu do prato: em dezembro de 2018 o salário comprava 2,02 cestas; hoje compra 1,77. A inflação média foi domada; a inflação de quem come, não, e o Ipea confirma que a cesta da renda baixa lidera a alta acumulada de 2026.

"Estamos comprando mais": a soma que o presidente cobra do povo

Na entrevista à Record exibida na noite em que faltou ao debate da Band, o presidente Lula deu a própria explicação para a carestia, ecoando a "sensação" que esta casa analisou na fala de Míriam Leitão: a sensação de preço caro viria de que "estamos comprando mais". Nas palavras dele, o consumidor vê ofertas no celular de "R$ 5, R$ 15, R$ 20, e ele também vai comprando. Ele não se dá conta que tem que somar aquilo para saber, no fim do mês, quanto gastou que não estava previsto". E a receita: "O povo tem que consumir olhando quanto ganha". Na mesma entrevista, o presidente atribuiu a percepção de carestia à mudança nos hábitos de consumo, impulsionada pela propaganda no celular, e admitiu o óbvio que pesa na prestação: "O juro está caro, a taxa Selic está alta, e quem paga muito caro por isso é o povo mais pobre que compra prestação". Na avaliação desta casa, a explicação transfere ao consumidor a conta de escolhas do governo: como mostra a tabela acima, os tributos que voltaram ao preço têm assinatura, e não é a do povo.

Esta matéria fez a soma que o presidente cobra, e ela está nos gráficos acima: 50% no índice, 77% na comida, 15 horas e meia a mais por cesta. Falta somar, porém, a coluna que a entrevista pulou, e que não é do consumidor: os tributos federais da gasolina, zerados em 2022, foram recompostos a partir de 2023 e somam R$ 0,79 por litro; o ICMS monofásico subiu a R$ 1,57 em janeiro (Comsefaz), levando o imposto a um terço do preço da bomba; o IOF foi elevado em 2025; e o Imposto Seletivo estreia em janeiro sobre cerveja e refrigerante, com alíquotas ainda indefinidas, como esta casa mostrou na matéria da virada tributária. E a Selic de 14% que o presidente chama de cara é o preço que o mercado cobra da desconfiança fiscal que a própria herança de 2027 documenta. Na avaliação desta casa, a educação financeira que o país precisa começa pelo orçamento que não soma os próprios gastos antes de cobrar a soma do carrinho alheio.

Incêndio e goteira

A comparação justa entre a inflação do COVID e a de agora não é "qual taxa é maior", que a de 2021 vence disparado, e sim de natureza. A da pandemia foi incêndio de choque global: commodities, câmbio, gargalos. A atual, descreve a FGV/IBRE, é "multifatorial e resistente", com os serviços rodando a 5,74% em 12 meses, movidos por inércia e mercado de trabalho aquecido: uma goteira que não para de pingar, caindo exatamente sobre o nível que o incêndio deixou.

Variação é do governo; nível é do povo

Quando o governo celebra um IPCA de 0,07% no mês, celebra uma variação, e a variação é real. O eleitor vive no nível: 50% acima de 2018 no geral, 77% na comida, 15 horas e meia de trabalho a mais por cesta, um botijão dois terços mais caro. Não é preciso inventar taxa nem chamar desaceleração de mentira; basta mostrar o acumulado que o recorte mensal esconde, e agora ele está em gráfico. Os números desta matéria saíram do SIDRA do IBGE, dos boletins do DIEESE e das tabelas da ANP, os mesmos órgãos cujos dados valem quando favorecem o governo e quando o desmentem. Em outubro, quem fecha a conta é o voto, e ele costuma ser ótimo aritmético.

Fontes

SIDRA/IBGE: número-índice do IPCA, dez/2018 e jul/2026 (acumulado composto +50,13%)

DIEESE: cesta básica de dezembro/2018 (SP R$ 471,44; 108h43min) [PDF]

DIEESE/Conab: cesta básica de julho/2026 (SP R$ 915,01; 124h11min) [PDF]

DIEESE: cesta básica de dezembro/2022 (SP R$ 791,29; 143h38min) [PDF]

ANP: Síntese Semanal 49/2022, gasolina a R$ 4,96 na última semana de 2022 [PDF]

ANP: série histórica mensal, GLP a R$ 109,18 em dez/2022 [planilha]

Tribuna do Norte: Lula diz que "sensação" de preço caro é porque "estamos comprando mais" (24/08/2026)

Brasil Paralelo: Lula diz que povo sente preço alto porque compra sem somar gastos (24/08/2026)

Poder360/ANP: gasolina a R$ 4,344 na última semana de 2018 (04/01/2019)

ANP via Acessa: gasolina R$ 6,53 e GLP R$ 113,89 na semana até 15/08/2026

ANP via Acessa: extremos captados, litro a R$ 9,79 no Guarujá (jul/2026)

Gasolina a R$ 11,19 em Fernando de Noronha (06/06/2026)

ANP: evolução do preço do GLP 13kg em 2018 (média R$ 67,99) [PDF]

Comsefaz: ICMS monofásico da gasolina a R$ 1,57/litro desde 01/01/2026

Correio Braziliense: PIS/Cofins da gasolina em R$ 0,79/litro (23/04/2026)

FGV/IBRE: A inflação brasileira ficou mais complexa (21/05/2026)

Ipea: inflação por faixa de renda; renda baixa lidera o acumulado de 2026 (20/08/2026)

DIEESE: série histórica do salário mínimo nominal (R$ 954 em 2018 a R$ 1.621 em 2026)

InfoMoney: piso do magistério vai de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63 em 2026 (22/01/2026)

DIEESE: cesta básica de dezembro/2014 (SP R$ 354,19) [PDF; série completa nos boletins de dezembro de cada ano]

Agência Brasil/MEC: piso do magistério de R$ 1.697,39 em 2014

CNN Brasil: IPC-Fipe encerra 2025 em 3,83% [fechamentos anuais da Fipe citados na imprensa econômica de cada janeiro]

CNN Brasil/VR: feijão-carioca dispara 96,8% em 2026, de R$ 8,46 a R$ 16,64 o quilo (17/08/2026)

InfoMoney/Procon-SP: feijão a R$ 9,32 o quilo em junho na capital paulista

Scanntech: dados de caixa do varejo alimentar; batata +60,2% e cenoura +152% no semestre

FGV: IGP-M de julho/2026; alimentação em deflação no IPC da fundação

Leia também